Matrix e a Metafísica - Parte III
2, Agosto,2007 at 3:29 am | In Filmes, Filosofia | 1 CommentOutro elemento ideológico da trilogia, associado a essa temática, é o afunilamento reiterado do sentido da narrativa na vida do personagem principal. Das várias vezes que ele ocorre, a famosa cena da luta de Neo contra as dezenas de agentes Smith é a mais emblemática(além da que ocorre no final de Revolutions). O Escolhido, o Predestinado, “The One”, aquele cujo sentido de vida consiste em salvar a hiperbólica das forças do mal. O fato de que se trata do mesmo agente, mas aos montes, parece nos vender a seguinte idéia: apesar de os males no mundo serem infinitamente variáveis, todos proviriam de uma única fonte, como aliás, é o que será apresentado no terceiro episódio, em que se pode ver a cidade das máquinas, geradora ininterrupta dos sentinelas.
Essa identificação do espectador com o filme não é feita apenas em termos abstratos de uma luta contra poderes do mal, mas também através da identificação que fazemos entre um mundo produzido por computador e nossa realidade, que se torna cada vez mais abstrata, manipulada por números em contas bancárias e em cartões de crédito, regida pelo peso das grifes ao escolhemos produtos, e uma série de outros elementos que fazem com que a realidade seja cada vez mais vivida a partir de seus signos, de seus representantes na cultura de massa. E apartir desse processo de identificação, que aliás, possui outras facetas de que não tratamos, a trilogia Matrix elabora metaforicamente uma metafísica do cotidiano. E tal como dissemos antes, a dimensão prática dessa perspectiva ganha cada vez mais ênfase, e no terceiro episodio, Revolutions, que sem duvida é o que possui menos valor estético, toda a trama narrativa tem um só sentido: constratar a total desesperança da luta contra o mal que se apóie em um realismo obstinado e francamente impotente, de um lado, e por outro a crença em uma verdade difícil de aceitar, ou seja, que Neo é quem salvará a todos por ser predestinado. Isso é visto claramente na quantidade absurda de sentinelas que invadem a cidade de Zion, cuja disparidade com as forças dos rebeldes faz com o espectador seja acuado até a perda do fôlego, inevitavelmente chegando a pensar: “É, dessa vez não tem mais jeito… não há mais como continuar lutando. É preferível desistir”. Essa atmosfera derrotista prevalece o tempo todo no filme, sendo resolvida através de outra metáfora somente no final. Mas esta eu deixo a tarefa para os leitores interpretarem. Boa sorte com filme.
Matrix e a Metafísica - Parte II
2, Agosto,2007 at 3:27 am | In Filmes, Filosofia | No CommentsO primeiro filme possuía uma âncora bem clara a constituição do enredo, que era o enigma sumamente inquietante de que a realidade percebida era, na verdade, produzida através de computador por seres. Esse mote pôde ser aproveitado em diversas circunstancias, como por exemplo, nas varias passagens de um nível de realidade a outro (do real ao virtual), em que o espectador se compara nesta relação dualística de aparência e realidade de modo bastante claro e direto.
Entretanto, não pense que esse aspecto cognitivo de contraste entre o verdadeiro e o falso não contenha, desde o inicio, elementos de ordem prática, motivacional. Ao contrario do que disse Morpheus a Neo quando lhe apresentou as pílulas vermelha e azul - “Lembre-se: a única coisa que eu lhe ofereço é a verdade” - a partir do momento em que travou contato com essa idéia, toda a existência de Thomas Anderson passou a ser guiada integralmente pelo desejo (necessidade) de libertar todos aqueles que viviam trancafiados na rede de ilusões tramada por seres poderosos, sempre vistos como representantes do Mal, curiosamente tão absoluto quanto o Bem Platônico. Mas já nos rituais de transporte dos personagens ao mundo virtual existe um componente de ordem prática, ligado ao papel do corpo nessa relação entre o verdadeiro e o falso. O aguilhão inserido na parte de trás da cabeça dos personagens, enfatizando claramente a violência corporal, mostra, por assim dizer, o que essa visão metafísica considera o preço a ser pago na conquista do que é tomado como real: o sofrimento agudo, penúria, abnegação. Em Matrix Reloaded, os diretores, não vendo mais um meio de explorar o teor cognitivo da idéia-base do primeiro filme, colocaram todo o peso da narrativa na urgência de evitar a invasão da cidade dos rebeldes pelos dispositivos do mal. Sendo bastante inferior em termos de argumentos composicional, bem próximo de episódios de seriados de TV, como A Jornada nas Estrelas, em que uma tripulação “do bem” é incessantemente contraposta a civilizações malignas, ou até mesmo com seu clichê de um conselho deliberativo que coloca em xeque as resoluções do capitão e de outros comandantes da nave, a identidade de Neo como Messias congregou todo o argumento metafísico, fazendo com que o sentido do segundo filme fosse determinado pela dúvida em relação ao papel que esse personagem desempenhava na tarefa de salvar toda a população de Zion. De um lado, Morpheus, Trinity e seus amigos, e de outro, vários incrédulos, representantes de um realismo obstinado e impotente, como se a divisão entre bons e os maus - ou seja, habitantes de Zion/ agentes da Matrix - se repetisse, em escala menos drástica, no interior do próprio grupo dos bons. Aqui, cada personagem tem que lutar de modo incessante e obstinado contra as forças malignas, e motivado por uma idéia que estipula uma verdade situada muito além de sua visão atual. Somos levados a ver nisso uma metáfora para a condição humana: embora o cotidiano seja permeado de contratempos, desilusões e sofrimentos de toda ordem, aquela perspectiva metafísica quer nos fazer pensar que existe uma verdade cujo teor é suficiente forte para conferir um sentido à vida, apesar de todos os revezes sofridos.
Continua…
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