Matrix e a Metafísica - Parte II

2, Agosto,2007 at 3:27 am | In Filmes, Filosofia |

O primeiro filme possuía uma âncora bem clara a constituição do enredo, que era o enigma sumamente inquietante de que a realidade percebida era, na verdade, produzida através de computador por seres. Esse mote pôde ser aproveitado em diversas circunstancias, como por exemplo, nas varias passagens de um nível de realidade a outro (do real ao virtual), em que o espectador se compara nesta relação dualística de aparência e realidade de modo bastante claro e direto.
Entretanto, não pense que esse aspecto cognitivo de contraste entre o verdadeiro e o falso não contenha, desde o inicio, elementos de ordem prática, motivacional. Ao contrario do que disse Morpheus a Neo quando lhe apresentou as pílulas vermelha e azul - “Lembre-se: a única coisa que eu lhe ofereço é a verdade” - a partir do momento em que travou contato com essa idéia, toda a existência de Thomas Anderson passou a ser guiada integralmente pelo desejo (necessidade) de libertar todos aqueles que viviam trancafiados na rede de ilusões tramada por seres poderosos, sempre vistos como representantes do Mal, curiosamente tão absoluto quanto o Bem Platônico. Mas já nos rituais de transporte dos personagens ao mundo virtual existe um componente de ordem prática, ligado ao papel do corpo nessa relação entre o verdadeiro e o falso. O aguilhão inserido na parte de trás da cabeça dos personagens, enfatizando claramente a violência corporal, mostra, por assim dizer, o que essa visão metafísica considera o preço a ser pago na conquista do que é tomado como real: o sofrimento agudo, penúria, abnegação. Em Matrix Reloaded, os diretores, não vendo mais um meio de explorar o teor cognitivo da idéia-base do primeiro filme, colocaram todo o peso da narrativa na urgência de evitar a invasão da cidade dos rebeldes pelos dispositivos do mal. Sendo bastante inferior em termos de argumentos composicional, bem próximo de episódios de seriados de TV, como A Jornada nas Estrelas, em que uma tripulação “do bem” é incessantemente contraposta a civilizações malignas, ou até mesmo com seu clichê de um conselho deliberativo que coloca em xeque as resoluções do capitão e de outros comandantes da nave, a identidade de Neo como Messias congregou todo o argumento metafísico, fazendo com que o sentido do segundo filme fosse determinado pela dúvida em relação ao papel que esse personagem desempenhava na tarefa de salvar toda a população de Zion. De um lado, Morpheus, Trinity e seus amigos, e de outro, vários incrédulos, representantes de um realismo obstinado e impotente, como se a divisão entre bons e os maus - ou seja, habitantes de Zion/ agentes da Matrix - se repetisse, em escala menos drástica, no interior do próprio grupo dos bons. Aqui, cada personagem tem que lutar de modo incessante e obstinado contra as forças malignas, e motivado por uma idéia que estipula uma verdade situada muito além de sua visão atual. Somos levados a ver nisso uma metáfora para a condição humana: embora o cotidiano seja permeado de contratempos, desilusões e sofrimentos de toda ordem, aquela perspectiva metafísica quer nos fazer pensar que existe uma verdade cujo teor é suficiente forte para conferir um sentido à vida, apesar de todos os revezes sofridos.

Continua…

 

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